terça-feira, 29 de junho de 2010

Trabalhando com Saúde Mental - Parte I

Como prometido, hoje senti que devo falar um pouco sobre o futuro que escolhi para mim. Já contei sobre como desisti do jornalismo e entrei na psicologia, mas o acho que é essencial falarmos um pouco sobre a área, como ela é vista pelas pessoas e as dificuldades que o profissional pode encontrar. Ainda não tenho possibilidades de expor grandes opiniões, até porque sou uma mera estudante - mas como tal, acredito que já posso dividir algumas descobertas interessantes com vocês.

Meu pai não queria que eu cursasse psicologia. Ele sempre achou um curso inútil, que me obrigaria a montar meu próprio consultório para lucrar com isso. Como sempre gostei de contrariar, comecei o curso e logo sai de um emprego em um banco que me dava certa estabilidade financeira para tentar ingressar na área. No final do primeiro ano, consegui um estágio lá no Centro de São Paulo para trabalhar com recrutamento e seleção. Não era nada comparado ao emprego que eu tinha anteriormente, mas pra mim aquela primeira oportunidade foi tudo. Eu anunciava vagas, fazia triagem de currículos, convocada candidatos (o que eu mais odiava nisso tudo!) e a melhor parte, que pra mim era aplicar testes psicológicos. Trabalhava com umas seis outras estagiárias e algumas psicólogas. Estava adorando, mas tinha uma parte que eu gostaria muito de fazer e ainda não podia, que era realizar as entrevistas. Além disso, a grana estava curta e eu não estava mais dando conta das minhas coisas. Foi aí que com muita dor no coração me despedi de lá.

Em seguida, comecei a trabalhar no RH de uma empresa de serviços ambientais. Lá eu resolvi a parte financeira, e consegui finalmente realizar as minhas tão sonhadas entrevistas. Conheci duas psicólogas que me ajudaram demais e me acrescentaram muito, porém o destino da empresa tomou outro rumo e eu fui obrigada a pedir para sair. Não quero entrar em detalhes sobre isso, mas o importante é dizer que o que aconteceu me fez desanimar de RH e me colocou para refletir.

Bom, iniciei o terceiro ano da faculdade desempregada e desamparada... rs! Não sabia que rumo tomar, mas tinha a certeza de que não queria voltar para a área organizacional. Foi aí que eu percebi o grande problema que os alunos do curso enfrentam: Só existiam vagas para trabalhar em RH! Me cadastrei em alguns sites de emprego, e 100% do que eu recebia era para essa área. Pessoas me ligaravam desesperadas oferecendo vagas que pareciam cair do céu, de todos os cantos. Admito que quase fui pela questão financeira, mas pensei muito bem e percebi que não deveria me render facilmente a grana e pensar mais na minha satisfação profissional - e no meu futuro.

Já que os sites não me ajudavam, comecei a mandar aleatoriamente pra hospitais, ONGs, escolas, etc - para tudo, menos empresas e consultorias de RH. A minha paixão mesmo é a parte mais crítica da psicologia: as psicoses. Por isso, eu queria algo que pudesse me aproximar desse mundo tão fascinante. Com a faculdade, tive oportunidade de fazer alguns trabalhos no Manicômio Judiciário de Franco da Rocha, o que fez com que eu me encantasse ainda mais pela área.

Enfim, mandei os currículos e até esqueci disso. Como eu já tinha trabalhado em RH, sabia que as chances de me chamarem por um currículo enviado pelo site eram mínimas. Já que eu não tinha escolha, resolvi me dedicar ao máximo à faculdade e fazer o maior número possível de cursos. Fui a várias palestras, realizei um curso sobre o modelo CAPS aos sábados e estudei como nunca havia feito antes. A matéria que mais me fascinou foi Psicopatologia (porque será?), sem contar que a minha professora é a melhor de todas. Já disse em um post que admiro pouquíssimas pessoas de forma verdadeira e intensa, mas a Profª. Lídia é uma delas. Psiquiatra, capricorniana e com um humor invejável, ela fez com que eu me apaixonasse ainda mais pela mente humana e, para mim, fez bem mais que isso: convidou os alunos para irem um dia ao pronto-socorro psiquiátrico onde ela faz plantão, e eu não apenas fui nesse dia como em todos os outros. Com a maior paciência do mundo ela aceitou ver a minha cara toda quinta-feira, onde eu acordava às 04:45 da manhã pra chegar em Santo Amaro às 07:00h. Fazia isso por amor a tudo o que eu estava aprendendo e por admiração ao profissionalismo da Lídia. Por não estar trabalhando eu tive tempo de fazer isso, e foi a experiência mais rica que já realizei.

Continuei frequentando o pronto-socorro semanalmente, até que um dia me ligam para fazer uma entrevista. Era de uma ONG localizada dentro de um CAPS, que era exatamente o tema do curso de extensão que eu cursava. Para quem não sabe, CAPS significa Centro de Atenção Psicossocial, e são comunidades terapêuticas pertecentes ao serviço público de saúde que buscam acolher portadores de transtornos mentais severos. Eles chegam pela manhã, se alimentam, realizam atividades terapêuticas, têm atendimento psicológico e psiquiátrico a disposição e vão embora no final da tarde.

De volta ao assunto da ONG, fui até lá no mesmo dia e me admitiram. Coincidência ou não, encontrei meu professor que me dava o curso lá no CAPS e ele ficou muito feliz pela minha conquista. Hoje, dou aulas de informática para os pacientes do CAPS e de outras instituições, todos com graves transtornos mentais, retardos ou autismo. Achei que nunca usaria meu curso técnico de informática para nada, mas vejo que encontrei uma utilidade para ele.

A ONG visa não só realizar atividades terapêuticas por meio de exercícios em Word, Excel e Power Point, mas principalmente fazer a inclusão digital desses pacientes através das redes sociais. Eu achei o projeto muito interessante, e por isso estou lá até hoje. Claro que encontro muitas dificuldades em lidar com esse tipo de paciente, mas garanto que minhas experiências anteriores me auxiliam e muito nessa função. Vou contar um pouco mais em alguns outros posts.

Só queria aproveitar para pedir ao pessoal de psicologia que tentem encontrar algo em sua área de interesse. Vejo muitos colegas que sonham com a área clínica ou social se acomodarem em estágios de RH por acharem que outro caminho é impossível. Não é! Quem vai atrás sempre consegue, e não adianta deixar para conquistar o que se quer no final do 5º ano.

Em breve, mais relatos sobre a questão da saúde mental...

Um comentário:

  1. Olá Fernanda.Estava vagando numa comunidade sobre "escrevo o que sinto"(alguma coisa assim),quando me deparei com um tópico sobre blogs e tal. Vi todos,mas apenas um chamou a minha atenção: o seu. Um dos motivos é que apesar de não ser formado em psicologia, me interesso pela área. Achei interessante os meandros citados por você para alcançar o que deseja. Muitas vezes desistimos por algum empecilho que ás vezes é minusculo,mas transformamos em gigante. E o grande problema que vejo,é a impaciência em tentar de novo. É o comodismo da derrota.E se não se importa,vou ver se consigo acompanhar seu blog.

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