domingo, 27 de junho de 2010

Eterna Paixão


Todo mundo tem uma paixão na vida - ou ao menos deveria ter. Eu descobri a minha aos 14 anos, quando resolvi entrar na aula de guitarra. Passei por um conservatório e duas escolas livres até encontrar um professor de música que realmente me conquistou, o Ronaldo. Não queria ter aulas teóricas e nem ouvir um professor babaca dizendo o quanto ele era bom (e colocando músicas de sua autoria pra eu ouvir); queria mesmo é que alguém me ensinasse a tocar, e logo. Só o Ronaldo me ofereceu isso.

Na segunda aula, para conter a minha ansiedade quase irritante, ele me passou duas músicas para treinar - "Flores" dos Titãs e "Proibida pra Mim" do Charlie Brown. Não era exatamente o que eu estava esperando, mas eram fáceis o suficiente para eu começar. Pratiquei desesperadamente durante toda a semana, e na aula seguinte já estava tocando razoavelmente bem. Foi a partir daí que minha paixão começou a aumentar.

Pratiquei 06 meses no violão, e só depois ele me "liberou" a guitarra. Comecei a tocar Metallica, Ozzy, Iron e tudo mais que eu ouvia na época. Adorava ir às aulas, porém eu ainda não tinha guitarra em casa e infelizmente meu pai não estava em condições de me comprar uma. Me virava com um violão emprestado, e contava as horas para ir à aula tocar a Fender Strato do meu professor.

Realizei meu grande sonho alguns meses depois, quando meu avô fez uma surpresa. Estava na casa dos meus avós num final de semana, e ele pediu para que eu pegasse um chinelo para ele em seu quarto. Quando acendi a luz, me deparei com uma Fender vermelha, com um amplificador, jogos de cordas, a capa... Enfim, tudo o que eu precisava pra treinar. Não consigo descrever o que senti naquele momento, só sei que ele me proporcionou momentos de muita alegria com a "violinha" (como ele chamava a guitarra) e que sinto muito a sua falta.

Com a guitarra, comecei a treinar ainda mais em casa, porém tive uma surpresa desagradável. Após quase 03 anos de aula, meu pai teve uma dificuldade financeira e não poderia mais pagar as mensalidades. Compreendi a situação, mas me lembro até hoje do meu último dia de aula. Expliquei para o Ronaldo que teria que parar por um tempo, segurei firmemente as lágrimas e desabei ao chegar no carro. Minha mãe não podia fazer nada, mas eu também não conseguia controlar tamanha frustação. Em casa, parei de treinar e ignorava o assunto, mas isso não durou muito - logo eu voltei a treinar como antes.

Aos 18 anos arrumei um bom emprego, e com isso voltei para as aulas. Fiz durante alguns meses, mas não consegui conciliar com trabalho e faculdade. Dessa vez a separação foi menos dolorosa, mas também mais drástica - nunca mais pratiquei.

Sabe, eu acredito que não podemos fugir de certas coisas - e a música é uma delas em minha vida. Eu poderia já ter desistido ou cansado, mas é uma coisa que amo e que não consigo simplesmente esquecer. Mais cedo ou mais tarde a vontade sempre volta, não tem como fugir. A minha voltou essa semana, quando resolvi tirar meu violão do armário e percebi que perdi a prática, mas não esqueci um acorde sequer.

Acredito que tudo o que fazemos com afeto e dedicação não morre. A vida pode colocar outras coisas em nosso caminho, mais vitais eu diria - mas por dentro, a vontade de fazermos aquilo que realmente amamos continuará.


"Os músicos não se aposentam - param quando não há mais música em seu interior..." - Louis Armstrong.

2 comentários:

  1. oi, entendo o q vc passou pois passei o mesmo aos 12 anos (poucas aulinhas) qdo ganhei um violão zeerado de minha mãe (pq enchi MUUUUUITO o saquinho dela tb) . Bom, parei tudo, fui fazer um monte de outras coisas e depois fui aprendendo sozinho mesmo, com uns 16, 17 anos, juntando com a galera, coisa e tal, e por aí foi, depois não parei mais. Independente do que rolar no seu futuro, acho q o importante é registrar (filmar, gravar, escrever, desenhar, etc) todo esse momento, pq depois vc vai ver q esse material serve como "ancora" pra vc se localizar depois...bom, pelos menos comigo foi assim, hehehe, e continua sendo...(porém hj tenho 33 anos)

    depois dá uma olhada nesses sites e me fala (se deu certo estudar sozinho, heheh):
    www.kailasablues.blogspot.com e
    www.palcomp3.com.br/kailasablues

    bj e sucesso!

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  2. Pois é Fernanda. Acho que o você sente pela música não é apenas mera paixão,é amor. Acredito que paixão é apenas um combustivel pelas coisas e claro que é o passo inicial para se amar algo. E aí quando você se entrega a algo de corpo,mente e alma. Você dedica seu tempo,sua vida para mim isso é amor. Um exemplo que posso te dar,é uma paixão que possuo pela arte da escrita, me afastei por muito tempo dela,por conta de críticas ácidas de pais,colegas, muitos diziam que isso não dava dinheiro,outros diziam que escrevia apenas clichês e tal.E também por conta da faculdade. Mas nos últimos tempos,ouvi pessoas dizendo que deveria ser escritor, e recentemente recebi uma proposta de escrever em co-parceria(era um sonho compartilhar a escrita com a pessoa que me propos) e recebi outra proposta para escrever um curta com um grande amigo meu. Ou seja por mais que tentamos fugir ou afastar das coisas que amamos, é impossível pois há um ligação muito forte e inquebrável entre nós e as coisas que amamos.

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